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Tecnologia

Golpes com inteligência artificial crescem no Brasil e reacendem debate sobre governança da IA

Diego Velázquez
Diego Velázquez Publicado em julho 8, 2026
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7 Min Read

Enquanto ONU discute regras globais para IA em Genebra, pesquisa aponta que um em cada três brasileiros já foi vítima de golpe virtual.

O Brasil vive hoje uma relação ambígua com a inteligência artificial. Ao mesmo tempo em que o país aparece como o terceiro maior usuário do ChatGPT no mundo, atrás apenas de Estados Unidos e Índia, cresce também o número de brasileiros que já foram vítimas de golpes aplicados com ajuda dessa mesma tecnologia. Pesquisas recentes mostram que a IA já é percebida como parte do cotidiano por três em cada quatro brasileiros, mas o avanço rápido da ferramenta também abriu espaço para fraudes cada vez mais sofisticadas. O tema ganhou ainda mais relevância na primeira semana de julho, quando a ONU promoveu em Genebra o primeiro Diálogo Global sobre Governança da Inteligência Artificial, reunindo 193 países para debater regras internacionais para uma tecnologia que já influencia empregos, eleições e segurança. A pergunta que fica para o usuário comum é direta: como aproveitar os benefícios da IA sem virar vítima dela?

O avanço dos golpes virtuais que usam inteligência artificial

Levantamento do Observatório Fundação Itaú, em parceria com o Datafolha e encomendado pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública, revela que um em cada três brasileiros já foi vítima de algum tipo de golpe virtual. O dado ganha ainda mais peso quando cruzado com estatísticas regionais: no Rio Grande do Sul, por exemplo, a Secretaria de Segurança Pública registrou crescimento de 7,9% nos golpes digitais entre 2024 e 2025. Especialistas em direito digital apontam que julho se consolidou como mês de conscientização sobre o uso responsável da inteligência artificial justamente por causa desse cenário, no qual ferramentas que deveriam facilitar a vida das pessoas também são usadas por criminosos para criar fraudes mais convincentes, incluindo áudios, vídeos e mensagens que imitam vozes e rostos reais.

Esse crescimento das fraudes ocorre em paralelo à disseminação acelerada da IA generativa em praticamente todos os setores da economia. O Plano Brasileiro de Inteligência Artificial (PBIA) prevê R$ 23 bilhões em investimentos até 2028, reforçando que a tecnologia deixou de ser um diferencial competitivo e passou a ser considerada infraestrutura básica para empresas de todos os portes. A queda no custo de ferramentas de IA e a popularização de plataformas sem necessidade de programação ampliaram o acesso da população a essas tecnologias, o que trouxe ganhos de produtividade, mas também reduziu a barreira técnica para quem pretende utilizá-las de forma maliciosa, tornando ainda mais importante que o usuário comum aprenda a reconhecer sinais de fraude digital no dia a dia.

O que a ONU discutiu no primeiro Diálogo Global sobre IA

Em discurso na abertura do encontro em Genebra, no dia 6 de julho, o secretário-geral da ONU, António Guterres, classificou o momento atual como uma experiência sendo realizada nas sociedades sem plano e sem consentimento prévio. Ele destacou que a inteligência artificial avança em uma velocidade que nem mesmo seus criadores conseguem acompanhar totalmente, com potencial de remodelar economias inteiras, transformar o mercado de trabalho e até influenciar processos eleitorais ao redor do mundo. Ao mesmo tempo, Guterres reconheceu benefícios concretos já em curso, como diagnósticos médicos mais rápidos em áreas rurais e ferramentas educacionais que ampliam o acesso ao aprendizado.

A proposta de resolução que criou o Painel Científico Internacional Independente sobre Inteligência Artificial havia sido aprovada em fevereiro de 2026 pela Assembleia Geral da ONU, com 117 votos a favor. O painel é coordenado em conjunto pela União Internacional de Telecomunicações e pela Unesco, reunindo o Escritório da ONU para Tecnologias Digitais e Emergentes. O objetivo declarado do diálogo é justamente evitar que a regulação da IA fique restrita a poucos países ou blocos econômicos, buscando um entendimento mais amplo sobre limites éticos e de segurança para o uso dessas ferramentas, especialmente diante do crescimento de aplicações que já impactam diretamente a vida financeira e a segurança pessoal de cidadãos comuns em todo o mundo, incluindo o Brasil.

Como as empresas brasileiras estão se preparando para a nova fase da IA

No ambiente corporativo, o cenário também é de transição acelerada. Pesquisa da Amcham (Câmara Americana de Comércio) aponta que a inteligência artificial já é prioridade estratégica para empresas brasileiras em 2026, mas ainda falta maturidade e investimento consistente para transformar essa prioridade em resultados concretos. Relatório da Microsoft mostra que 94% dos líderes ouvidos no Brasil consideram este o ano decisivo para repensar processos e modelos de gestão à luz da IA, reflexo direto da pressão por produtividade em um mercado de trabalho cada vez mais competitivo.

Esse movimento também aparece na formação de profissionais. Eventos como o Future Skills Masterclass, previsto para agosto em São Paulo, têm reunido líderes e tomadores de decisão para discutir como preparar equipes para um cenário de transformação contínua. Especialistas do setor reforçam que o desafio não é apenas técnico, mas organizacional: empresas que adotam IA sem investir em governança, transparência e capacitação de equipes correm riscos jurídicos e reputacionais, especialmente à medida que o marco legal brasileiro sobre inteligência artificial avança rumo a regras mais claras sobre responsabilidade algorítmica e proteção de dados.

O retrato que emerge dessas informações é o de um país que abraçou a inteligência artificial rapidamente, mas que ainda está aprendendo a lidar com seus riscos na mesma velocidade em que adota seus benefícios. Para o cidadão comum, a recomendação prática que surge desse cenário é redobrar a atenção com mensagens, ligações e vídeos que pareçam suspeitos, mesmo quando parecem vir de pessoas conhecidas, já que a tecnologia usada para criar fraudes convincentes está cada vez mais acessível. Ao mesmo tempo, o debate global liderado pela ONU e o amadurecimento regulatório no Brasil indicam que o país caminha, ainda que de forma gradual, para um uso mais seguro e responsável dessas ferramentas nos próximos anos.

Fontes consultadas:

  • https://www.jornaldocomercio.com/opiniao/2026/07/1254960-no-mes-da-ia-um-convite-a-reflexao.html
  • https://brasil.un.org/pt-br/318760-primeiro-di%C3%A1logo-global-sobre-governan%C3%A7a-da-intelig%C3%AAncia-artificial-ia
  • https://www.amcham.com.br/noticias/inteligencia-artificial-sera-prioridade-das-empresas-em-2026
  • https://www.clicportela.com.br/noticia/171824/ia-no-trabalho-exige-novas-capacidades-humanas
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