O Brasil iniciou um projeto voltado ao desenvolvimento de um acelerador nacional de inteligência artificial baseado na arquitetura aberta RISC-V. A iniciativa reúne o Centro de Tecnologia da Informação Renato Archer (CTI Renato Archer), o Instituto Eldorado e a Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), com participação de instituições públicas e financiamento federal.
O objetivo é criar uma tecnologia capaz de ampliar o desempenho de aplicações de inteligência artificial e, ao mesmo tempo, fortalecer a autonomia brasileira em componentes estratégicos da infraestrutura digital. O lançamento do projeto ocorreu em 13 de outubro de 2026, no Instituto Eldorado, em Campinas, no interior de São Paulo.
De acordo com o Centro de Tecnologia da Informação Renato Archer, a primeira etapa terá R$ 50 milhões. Os recursos são provenientes do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI) e de fundos públicos, incluindo o Fundo Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico, o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social e a Financiadora de Estudos e Projetos. O planejamento também prevê R$ 75 milhões adicionais nas fases seguintes.
Como funciona um acelerador de inteligência artificial
Aceleradores de inteligência artificial são componentes projetados para executar, com maior eficiência, operações utilizadas por sistemas de aprendizado de máquina. Eles podem ser empregados tanto no treinamento de modelos quanto na execução de tarefas depois que esses sistemas já foram desenvolvidos. Na prática, esse tipo de tecnologia é parte da estrutura computacional necessária para aplicações de reconhecimento de padrões, análise de dados e automação.
O projeto brasileiro está concentrado no desenvolvimento de um nó computacional e de um acelerador de IA. A proposta combina a criação de uma estrutura de processamento com um componente especializado, desenvolvido para atender às demandas de aplicações de inteligência artificial. O trabalho envolve pesquisa, prototipagem e engenharia de sistemas, sem se limitar à utilização de equipamentos estrangeiros já disponíveis no mercado.
Por que a arquitetura RISC-V é estratégica
O RISC-V é um padrão aberto para a criação de processadores. Diferentemente de modelos proprietários que podem exigir licenças e pagamentos de royalties, a arquitetura permite que instituições e empresas desenvolvam e personalizem soluções a partir de uma base aberta. Essa característica é considerada relevante para países que buscam ampliar sua capacidade de pesquisa e produção em semicondutores.
Segundo o CTI Renato Archer, a adoção do RISC-V pode contribuir para reduzir a exposição do Brasil a restrições comerciais, licenças estrangeiras e riscos geopolíticos. A arquitetura não elimina os desafios de fabricação de chips nem garante, por si só, independência tecnológica, mas oferece uma alternativa para o desenvolvimento de projetos próprios e para a formação de conhecimento nacional.
O tema ganhou importância à medida que processadores avançados passaram a ocupar posição central em serviços digitais, sistemas de alto desempenho e aplicações de inteligência artificial. A dependência de componentes críticos produzidos fora do país pode limitar o controle sobre custos, fornecimento e evolução das tecnologias utilizadas por empresas, universidades e órgãos públicos.
Instituições envolvidas e próximos impactos
O Instituto Eldorado e a Unicamp estão entre os principais executores da iniciativa, enquanto o CTI Renato Archer participa como unidade vinculada ao MCTI. A cooperação aproxima centros de pesquisa, instituições acadêmicas e estruturas de desenvolvimento tecnológico em torno de um mesmo objetivo: criar uma solução brasileira para uma área considerada estratégica.
Os resultados podem alcançar campos como computação de alto desempenho, pesquisa científica, indústria e serviços públicos. A tecnologia também poderá servir como base para novos projetos de hardware e software, embora a aplicação final dependa do avanço das etapas de pesquisa, desenvolvimento e validação previstas no programa.
A iniciativa está relacionada ao Plano Brasileiro de Inteligência Artificial, estratégia federal que busca estimular o desenvolvimento, a regulação e o uso seguro da tecnologia no país. Nesse contexto, o investimento em infraestrutura de processamento complementa as discussões sobre aplicações, governança e segurança: além de utilizar sistemas de IA, o Brasil procura ampliar sua capacidade de desenvolver os componentes que sustentam essas soluções.
O projeto, portanto, representa uma frente de longo prazo na política brasileira de ciência, tecnologia e inovação. Ao apostar em uma arquitetura aberta, a iniciativa pretende criar condições para que pesquisadores e instituições nacionais participem de maneira mais ativa da cadeia de desenvolvimento de aceleradores de inteligência artificial, reduzindo a distância entre o uso de tecnologias importadas e a produção de conhecimento próprio.