Aumento nas passagens em cidades como São Paulo, Rio e Belo Horizonte reacende discussão sobre tarifa zero e financiamento do transporte público.
O transporte coletivo voltou ao centro das conversas nas grandes cidades brasileiras. Nas últimas semanas, moradores das principais regiões metropolitanas do país sentiram no bolso o reajuste das tarifas de ônibus, um movimento que se repete todos os anos, mas que em 2026 ganha contornos diferentes por conta do calendário eleitoral e da tramitação de um novo marco legal para o setor. A dúvida que fica para quem depende do transporte público todos os dias é simples: até quando os preços vão subir, e existe alguma alternativa real no horizonte?
Segundo especialistas ouvidos pelo setor de mobilidade, a resposta passa por um problema estrutural antigo: a maior parte dos sistemas de transporte coletivo do Brasil ainda depende quase exclusivamente da receita da própria tarifa para se manter, o que empurra o preço da passagem para cima sempre que os custos operacionais, como combustível, manutenção da frota e folha de pagamento, sobem. Sem outras fontes de financiamento, o ajuste tarifário acaba sendo o caminho mais rápido, ainda que o mais impopular, para equilibrar as contas das empresas de ônibus e das prefeituras.
O que diz o Estudo Nacional de Mobilidade Urbana
No início de julho, o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) e o Ministério das Cidades lançaram o Estudo Nacional de Mobilidade Urbana (ENMU), um levantamento pensado para orientar o planejamento de investimentos em transporte coletivo nas principais regiões metropolitanas do país pelas próximas três décadas. O documento reúne projetos de mobilidade de média e alta capacidade, como corredores de ônibus, metrôs e sistemas sobre trilhos, e deve servir de base para uma futura Estratégia Nacional de Mobilidade Urbana.
A iniciativa nasce em um momento em que o Congresso Nacional discute, em fase final, o Marco Legal do Transporte Público Coletivo. A proposta deve trazer exigências operacionais e de fiscalização mais rigorosas para as empresas concessionárias, além de abrir espaço para novos modelos de contratação, incluindo parcerias público-privadas que separam o risco da tarifa do risco do investimento em infraestrutura. Na prática, isso significa que o poder público passaria a assumir parte do risco financeiro hoje concentrado nas operadoras, o que pode, a médio prazo, aliviar a pressão sobre o preço pago pelo passageiro.
Ainda assim, o efeito desse marco regulatório não deve chegar rápido o suficiente para impedir novos aumentos neste ano. Cidades de diferentes portes já sinalizaram reajustes, e o debate sobre quem deve pagar a conta do transporte público, se o usuário, o poder público ou uma combinação das duas fontes, segue sem solução definitiva.
Tarifa zero é uma alternativa real para as grandes cidades?
A proposta de tarifa zero, defendida por movimentos sociais e por parte de gestores municipais, voltou a ganhar espaço nas discussões, especialmente em ano eleitoral. Entretanto, especialistas do setor alertam que a implementação imediata da gratuidade total, sem um planejamento prévio e sem fontes de receita alternativas bem definidas, tende a comprometer investimentos de longo prazo em vez de resolver o problema. A viabilidade da tarifa zero em grandes cidades depende diretamente da criação de novas receitas vinculadas à mobilidade, algo que ainda está em construção na maior parte dos municípios brasileiros.
Outro obstáculo apontado é a fragilidade da gestão metropolitana em boa parte do país. Fortalecer autoridades metropolitanas, sejam elas formais ou informais, é considerado essencial para integrar redes de transporte e sistemas de tarifas entre municípios vizinhos, algo que hoje ainda funciona de forma fragmentada em muitas regiões metropolitanas.
Uma das propostas em discussão no Congresso é a criação de um Sistema Único de Mobilidade, inspirado no modelo do Sistema Único de Saúde e previsto em uma Proposta de Emenda Constitucional que tramita desde 2023. A ideia é criar um mecanismo de financiamento compartilhado entre municípios, estados e União, semelhante ao que já existe para a saúde pública, para custear o transporte coletivo sem depender apenas da bilheteria.
Para o morador das grandes cidades, o que fica claro é que o preço da passagem de ônibus não deve parar de subir enquanto o modelo de financiamento do setor não for repensado de forma mais ampla. O Estudo Nacional de Mobilidade Urbana e o Marco Legal do Transporte Público Coletivo são passos nessa direção, mas os efeitos práticos dessas mudanças, se vierem, ainda vão levar tempo para chegar ao bolso de quem pega o ônibus todos os dias para trabalhar.
Fontes consultadas:
- https://www.portaldotransito.com.br/noticias/mobilidade-e-tecnologia/mobilidade-urbana/bndes-e-ministerio-das-cidades-lancam-estudo-para-orientar-investimentos-em-mobilidade-urbana-no-brasil/
- https://www.brasil247.com/brasil/bndes-e-ministerio-das-cidades-lancam-estudo-de-mobilidade-urbana/
- https://www.correiobraziliense.com.br/opiniao/2025/12/7320280-mobilidade-urbana-no-brasil-em-2026.html
- https://revistaautobus.com.br/?p=17532